Como mulheres com deficiência, sabemos as múltiplas opressões que nos tocam e com as quais estamos fartas de lidar. Estão presentes em todas as áreas das nossas vidas: no acesso à educação e ao emprego; no acesso a transportes públicos e ao espaço público; no respeito e acesso aos nossos próprios corpos; no acesso a cuidados de saúde e em particular aos de saúde sexual e reprodutiva; no acesso à informação e comunicação: algo tão elementar e decisivo para a vida em sociedade.  

Tudo isto acontece porque vivemos numa sociedade capacitista. 

O capacitismo é o preconceito e a discriminação contra pessoas com qualquer tipo de incapacidade, baseados na premissa de que estas são inferiores e precisam de ser curadas.  

As maiores evidências do capacitismo são as práticas e atitudes alheias que moldam, ainda, os nossos dias: atitudes paternalistas e condescendentes que nos sufocam e desempoderam, porque pessoas que não vivem a nossa realidade acham que “sabem o que é melhor para nós”. Porque acreditam que somos frágeis e necessitamos de proteção: não fôssemos nós pessoas com deficiência e, como se não bastasse, mulheres! 

Como se manifesta: 

  • Práticas de esterilização forçada 
  • Descredibilização das vítimas de agressão sexual por terem deficiência 
  • Desincentivo à vivência da vida amorosa e da maternidade  
  • Não reconhecimento da sexualidade e da sensualidade da mulher com deficiência 
  • Infantilização 
  • Piropos e elogios aos quais devemos ser gratas 
  • Desvalorização dos cuidados da autoimagem  
  • Perguntas e comentários invasivos sobre os corpos da mulher com deficiência 
  • Promoção do assistencialismo e dependência 
  • Crenças sobre a competência para o trabalho 

Estas práticas e atitudes são a maior causa da nossa falta de liberdade, que se estende ao papel da mulher na sociedade: porque não somos esposas elegíveis, nunca seremos mães (somos incapazes de cuidar, presumem), não temos “competências de lides domésticas e de cuidado”, e por isso somos mulheres incompletas. Ter uma existência que não corresponda ao “normal” incomoda e invisibiliza. Se a isto se juntar a feminilidade, a opressão é certa.  

Já é tempo de nos ouvirem. A mudança tem de acontecer e não vamos parar! Estamos fartas que o capacitismo inunde as nossas vidas, os nossos corpos e as nossas mentes.  Queremos mudanças que vão desde o respeito pelas nossas vontades e decisões, até à garantia e proteção de todos os nossos direitos fundamentais. Somos mulheres com deficiência, sim! E com muito orgulho! 

Decorrente de todas estas discriminações múltiplas, nasceu, em janeiro de 2021, o Coletivo Feminista do CVI (constituído por um pequeno grupo de mulheres com deficiência). Este grupo organizou-se e juntou-se a iniciativas de caráter feminista, como a Greve Feminista 2021. É um marco importante e algo não frequente em Portugal: as lutas feministas não incluíam, até então, as mulheres com deficiência nas suas preocupações (incluíam apenas as mulheres que cuidam de pessoas com deficiência). 

Está na hora de incluir as mulheres e as pessoas com deficiência na luta feminista. O capacitismo está interligado ao capitalismo e ao patriarcado. Apesar de esquecido, diz respeito a toda a gente. Está na hora de construirmos um feminismo anticapacitista. 

 

Junta-te à luta feminista! 
Junta-te à Greve Feminista 2021! 

Texto do Coletivo Feminista do Centro de Vida Independente