É costume dizer que o 8 de Março é o dia internacional dos direitos das mulheres. Nas nossas comunicações, decidimos usar a palavra neste formato: mulheres*. Mas  quem pode ser  sujeito nesta luta por sofrer dos ataques, que não são só contra mulheres, são contra todes nós a quem este sistema cisheteropatriarcal, racista, capitalista e capacitista subjuga pelo interesse de alguns? Este sistema patriarcal não ataca só mulheres! Ataca todes nós a quem esse mesmo cis-tema identifica como sendo em algum aspeto ligado à feminilidade! Falamos de todas as mulheres que foram designadas assim à nascença e se identificam como tal (mulheres cis), independentemente da raça, da classe, das características físicas ou mentais. Sim, mas não só. Porque as mulheres  que não foram assim designadas à nascença não são menos mulheres e sofrem diariamente da transmisoginia, elas têm um pleno lugar e pertencem a esta luta. Sim, mas não só. Porque as pessoas que foram designadas mulheres à nascença mas não se identificam assim, sejam elas homens trans ou pessoas não-binárias, também sofreram e ainda sofrem do cis-tema patriarcal, fazem parte integral do feminismo que nos anima: o transfeminismo.

O transfeminismo inclui plenamente todas as pessoas trans e não-binárias e propõe uma coligação de todas as pessoas vítimas do patriarcado.

O transfeminismo questiona o mito da naturalidade do binarismo de sexo e de género, e da causalidade entre os dois. Desmascara a prática de designação de género à nascença como sendo um pilar do patriarcado, servindo para a criação de duas classes e a dominação dos homens cis sobre as mulheres*.

O transfeminismo recusa qualquer leitura monolítica das existências das mulheres*. Defende que existe uma diversidade de vivências entre as mulheres*: não só ao nível cis-trans, mas também em relação aos critérios de raça, classe, deficiência e muito mais. Por natureza, o transfeminismo é interseccional.

Este sistema faz-nos educadoris grátis de quem nos maltrata ou peões úteis até rompermos com a nossa submissão cisnormativa – que é o lugar que nos é concedido. Esta sociedade quer nos mortes: quando não nos assassina, empurra-nos para o suicídio com discurso de ódio, sendo cúmplices das nossas mortes. O discurso de ódio propagado em relação a pessoas trans é instigador da violência! Não esquecemos a Gisberta, nem a Angelita, nem a Lara, nem o Santiago, nem todas as pessoas mortas pela exclusão, pela transfobia, pela transmisoginia e pelas macro e micro agressões, institucionais e interpessoais. O que não se nomeia não existe! Excluir-nos desta sociedade, assim como não nos incluir nesta luta, é oprimir-nos duplamente.

Nós reivindicamos o direito à autodeterminação, o direito à autonomia corporal, inclusive os direitos sexuais e reprodutivos e o direito a uma vida livre de violência, opressão e exploração.

Texto de Panteras Rosas e TransMissão